Séculos de silêncio: 3 livros que mudam a forma como você se vê no mundo
Não é falta de estratégia. Muitas mulheres não têm dificuldade de criar conteúdo. Elas têm dificuldade em se autorizar a aparecer nele. Neste texto, te mostro três livros que me ajudaram a entender o porquê.
Paula Araújo
3/30/20264 min read
Há livros mudam a forma como a gente enxerga o mundo; outros mudam a forma como a gente se enxerga dentro dele. Recentemente, três leituras me fizeram entender melhor por que tantas mulheres ainda hesitam em se posicionar, seja no trabalho, nos negócios ou nas redes sociais.
E o mais importante, eles me fizeram enxergar que essa hesitação não nasce de uma falha pessoal. Ela tem endereço histórico.
A dificuldade não é em criar conteúdo, mas em se autorizar a aparecer
Quando trabalho com mulheres que são a própria marca, uma coisa me chama atenção com frequência: o problema em produzir conteúdo e se posicionar no ambiente no ambiente digital raramente é técnico.
Elas sabem o que fazem, têm repertório e história para contar. A grande lacuna, na maioria das vezes, está na percepção e na aceitação de que esse espaço também é delas e merece ser ocupado.
Esse sentimento tem um nome e tem uma origem e, depois que essa origem ficou clara para mim, o meu modo de enxergar essas mulheres mudou.
O que a história tem a ver com o seu feed?
Para muitas mulheres, firmar um ponto de vista, defender valores e ocupar um espaço público com autoridade ainda significa enfrentar algo muito mais antigo do que o algoritmo.
O patriarcado não apenas limitou o acesso das mulheres a espaços profissionais e políticos. Ele condicionou, ao longo de séculos, a forma como elas se relacionam com a própria voz, com o próprio corpo, bem como com a ideia de quem tem ou não o direito de dominar um lugar.
A questão é que esse condicionamento não some simplesmente quando a mulher abre uma conta no Instagram ou decide empreender. Ele aparece na hesitação que surge antes de publicar algo. Naquele post que fica no rascunho por dias, na voz que se diminui antes mesmo de começar a falar.
Quando entendi essas estruturas, adquiri um olhar mais sensivel e acolhedor sobre as minhas clientes e sobre mim mesma.
bell hooks — O Feminismo é para Todo Mundo
O primeiro livro que indico é uma porta de entrada. Em "O Feminismo é para Todo Mundo", bell hooks escreve com uma clareza que desarma. A autora não trata o feminismo como uma guerra entre gêneros, ela enfatiza a libertade de toda a sociedade de estruturas de opressão a partir dessa ideologia.
Essa distinção importa muito, especialmente para mulheres que ainda associam o feminismo a um discurso de confronto e, por isso, se afastam dele antes mesmo de entrar. hooks mostra que as estruturas que limitam as mulheres também limitam os homens, ainda que de formas diferentes, e que nenhuma transformação real acontece sem que todos entendam o que está em jogo.
Para mim, esse livro foi a base para entender que posicionamento não é vaidade. Ocupar espaço com a própria voz é, antes de tudo, um ato de pertencimento.
Gerda Lerner — A Criação do Patriarcado
Se bell hooks abre a porta, Gerda Lerner acende a luz lá dentro.
A autora revela que o patriarcado não nasceu pronto. Ele foi construído. A tese central de Lerner muda completamente a forma como enxergamos o presente.
A historiadora mostra, com riqueza de evidências, como a subordinação feminina foi sendo institucionalizada ao longo de milênios, seja no controle do corpo, na exclusão dos espaços de poder, seja no apagamento da memória e da narrativa das mulheres. Nada disso foi natural. Tudo foi uma escolha política, reforçada por sistemas jurídicos, religiosos e culturais.
Entender isso tem um efeito libertador. Quando você percebe que a sensação de não pertencer não é sua, mas algo que foi instaurado, você começa a questionar o quanto dessa herança ainda carrega sem perceber.
Assim fica mais fácil reconhecer que muitas das inseguranças que as mulheres sentem ao se posicionar não são individuais, mas históricas.
Amia Srinivasan — O Direito ao Sexo
O terceiro livro é o mais desafiador dos três e talvez o mais necessário.
Amia Srinivasan não oferece respostas fáceis. Ela oferece perguntas que não têm saída simples sobre poder, autonomia e sobre o que significa exercer liberdade dentro de um mundo que ainda define os limites dessa liberdade para as mulheres.
O que é realmente escolha quando a escolha acontece dentro de uma estrutura desigual? Essa é a pergunta que atravessa o livro e ressoa muito além do tema central da obra.
Para quem trabalha com comunicação e posicionamento feminino, essa questão tem uma aplicação direta. Até onde o que a gente chama de "autenticidade" nas redes sociais é, de fato, expressão livre e até onde é performance moldada pelo olhar esperado de terceiros?
Srinivasan me fez pensar com mais profundidade sobre o que significa, para uma mulher, comunicar-se a partir de si mesma, sem pedir licença e sem se encaixar no formato que o ambiente valida.
Quando uma mulher decide se posicionar, não é só conteúdo
Esses três livros não me ensinaram sobre estratégia digital, mas me tornaram uma profissional melhor e uma observadora mais atenta ao que acontece quando uma mulher decide aparecer e ocupar um território.
Presença, para muitas de nós, ainda é um gesto profundamente político. Não porque queiramos que seja, mas porque a história fez questão de torná-lo assim.
E talvez seja exatamente por isso que o posicionamento feminino nas redes seja tão diferente de uma questão técnica. O que fica em jogo não é a frequência de postagem, tão pouco o formato, mas se autorizar a dominar um espaço que sempre foi seu por direito, porém ninguém garantiu que era.
Se você reconhece alguma parte de si nesse texto, talvez valha a pena começar por entender de onde vem essa voz que pede para você recuar.
Os livros são um bom começo.
